A dedicatória - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
Fechar

           ARTIGOS

A dedicatória

Artigos

Perseu Gentil Negrão
Dias atrás, recebi a triste notícia que o médico da família, meu irmão Odilon (O Neto) fora internado em um hospital. Ver o grande médico como paciente abalou-me. Durante a visita, mantive-me forte, otimista. Depois, em casa, chorei um bocado. Emocionado, lembrei da minha família, dos meus pais, da minha infância. Depois, pedi ajuda a Deus, a mamãe e a papai. Como por encanto, bati o olho na estante de livros e vi “Crônicas Dr. Rubão”, de autoria de papai (Rubens Sudário Negrão). Abri o livro e li o primeiro texto, que é uma dedicatória escrita em 03 de julho de 1958 no livro de poesias “Os Escravos”, de Castro Alves:

“Rubens – Neto – Perseu

Assim como eu, um dia vocês lerão Castro Alves e, em certas passagens, terão os olhos cheios de lágrimas. Não se acanhem pela emoção. É que o grande poeta dos escravos foi um gênio e soube, com ninguém, cantar e exaltar a liberdade. Quero que vocês, esquecidos por um momento das tribulações da vida, leiam e releiam este livro, gastem suas páginas nos cantos, pois a vida precisa da beleza da poesia, para que se aprenda a olhar o céu… Estamos no dia 3 de julho de 1958. São passados 40 minutos da meia noite (do dia 2). Vocês estão dormindo com a mamãe. Mas quem está sonhando sou eu… Sim! Estou sonhando com um futuro feliz. Vocês haverão de ser, pelo menos, homens de brio… Senti vontade de acordá-los para brincarmos um pouco. Ou melhor: Queria vê-los despertos, para partilharem comigo minha alegria. No entanto, não tive coragem. Vocês dormem o sono tranquilo da saúde. Agora mesmo fui olhá-los. Pus a mão na fronte de cada um de Vocês e meu coração de encheu de ternura… E como não podia deixar de ser, um conselho e uma ordem: Rubinho, Netinho e Perseu. Em qualquer terreno, em qualquer tempo e qualquer situação amparem-se mutuamente. Quero que Vocês seja unidos e inseparáveis e que a vontade de um seja o amparo dos outros. Deus os abençoe e boa noite”.

Sábado passado, meu irmão Rubinho veio de Itápolis e fomos visitar o Neto, que felizmente, já está convalescendo. Contamos uns “causos”, lembramos da infância e da juventude. Apesar da situação difícil, até demos umas boas risadas. Combinamos uma pescaria (pena que sem a presença física de papai, mas, com certeza, com sua lembrança). Estamos cumprindo a “ordem” de papai emitida em 03 de julho de 1958.

Perseu Gentil Negrão é procurador de Justiça do Ministério Público de São Paulo

Compartilhe nas redes sociais...Share on LinkedInTweet about this on TwitterShare on FacebookShare on Google+Email this to someone