Antônio Mendes e Arlei Fernandes, o Tiro de Guerra ontem e hoje - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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Antônio Mendes e Arlei Fernandes, o Tiro de Guerra ontem e hoje

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Antônio Mendes e Arlei Fernandes da Silva. (Foto: Edson Martins)

Antônio Mendes e Arlei Fernandes da Silva. (Foto: Edson Martins)

CARLA OLIVO
A evolução dos tempos, as mudanças da sociedade e os avanços tecnológicos trazem mudanças até mesmo a uma das áreas mais tradicionais e rigorosas: o serviço militar obrigatório para jovens com 18 anos. No Dia do Exército, comemorado na última quarta-feira, O Diário entrevistou o capitão Antônio Mendes, 79 anos, que durante duas décadas comandou os trabalhos de instrução no Tiro de Guerra de Mogi das Cruzes, e o subtenente Arlei Fernandes da Silva, 46 anos, atual chefe da instrução do TG da Cidade e que ficará dois anos no cargo. As diferenças do trabalho e, principalmente do perfil dos atiradores, são atribuídas às exigências dos tempos modernos e também do mercado de trabalho. Nascido em Marília, no Interior do Estado de São Paulo, onde fez o Tiro de Guerra em 1956, Mendes prestou concurso no ano seguinte para a Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações (MG), e de lá, foi transferido ao 4º Batalhão de Infantaria Blindada em Quitaúna (SP). Em 1961, pediu inclusão no quadro de instrutores de Tiro de Guerra e veio para o TG de Mogi, onde trabalhou de 1961 a 1980. Arlei incorporou na Unidade Militar da Ativa (UMA) de Rosário do Sul (RS), sua cidade natal, em 1991. Passou por Oiapoque (RN), Macapá (AP), João Pessoa (PB), Belém (PA), Itaqui (RS) e chegou a Mogi em janeiro de 2016. A Cidade, onde a esposa iniciou o curso de Direito na Universidade Braz Cubas (UBC), era sua primeira opção. Aqui chegou em janeiro de 2016 e ficará até dezembro deste ano. Na entrevista a O Diário, eles falam sobre o serviço militar no passado e hoje:

Quando foi criado o Tiro de Guerra de Mogi?
Mendes – Foi criado em 1910, primeiramente na Rua Olegário Paiva, 343, onde hoje é a loja Shibata Presentes. Ali ficava o almoxarifado da Prefeitura de Mogi, que cedeu uma parte para a instalação do Tiro de Guerra, que ficou lá até 1955. No ano seguinte, funcionou no Casarão do Largo do Carmo porque a Escola Industrial Presidente Vargas veio para Mogi e ocupou o imóvel da Prefeitura. Mas em 1957, foi transferido para a Avenida Governador Adhemar de Barros, 46, em um prédio locado, na frente da estação de trem, mas ficou mal instalado e, em consequência disso, no final de 1957 foi fechado pelo comando da 2ª Região Militar e assim ficou de 1958 a 1959, quando os convocados alistados em Mogi serviram em Caçapava, entre os quais o Junji Abe, Fernando Mello e outros. A Cidade se mobilizou e conseguiu reativar o Tiro em 1959, quando ele foi instalado de forma também provisória na Rua Barão de Jaceguai, 509, onde depois foi a Cúria e agora é um prédio. Ali estava a 1ª Companhia Independente da Força Pública, que saiu de lá e aquele imóvel foi doado ao bispo. Em 1964, o Parque Infantil Monteiro Lobato, no Largo Bom Jesus, foi fechado e o Tiro de Guerra veio para mais uma sede provisória até que em 7 de maio de 1972 foi inaugurada a atual sede, no Mogilar.

Quando os senhores chegaram ao Tiro de Guerra de Mogi?
Mendes – Nasci em Marília, onde fiz o Tiro de Guerra, em 1956. No ano seguinte, fui aprovado no concurso da Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações (MG), e de lá, transferido ao 4º Batalhão de Infantaria Blindada em Quitaúna (SP). Em 1961, pedi inclusão no quadro de instrutores de Tiro de Guerra e vim para o TG de Mogi, onde fiquei de 1961 a 1980. Quando cheguei, já havia três sargentos e eu era o E, o terceiro, que era o mais moderno. Mas com o tempo, eles saíram e em 1966 passei a chefe da instrução, já como segundo sargento, e fiquei até 1981, quando fui promovido a subtenente e transferido ao Comando da 2ª Região Militar, no Ibirapuera, em São Paulo. Mas como meus filhos estavam em época escolar, continuei morando em Mogi e viajei 9 anos para servir lá. Eu me aposentei em fevereiro de 1989, como capitão. Montei a gráfica Apolo, comandada hoje pelo meu filho, mas vou lá todos os dias e quando é preciso resolver algo em quartel general, porque fornecemos materiais gráficos a unidades militares, eu vou.

Arlei – Incorporei em uma Unidade Militar da Ativa (UMA), na minha cidade, Rosário do Sul, em 1991. Passei por cidades como Oiapoque (RN), Macapá (AP), João Pessoa (PB), Belém (PA), Itaqui (RS) e cheguei a Mogi em janeiro de 2016. Quando vim para cá, esta havia sido minha primeira opção, porque minha esposa já conhecia a Cidade, onde tinha estudado Direito na Universidade Braz Cubas (UBC), apesar de ter se formado em Belém (PA). Gostaria de ficar pelo menos mais um ano, mas devo ser transferido em 2018 e ainda não sei para onde. Minha primeira opção foi para a região do Paraná. Mas gostei muito de Mogi, que é uma cidade tranquila, com ar de Interior, bom clima e muito desenvolvida.

Quais as características do Tiro de Guerra na década de 60?
Mendes – A disciplina era mais rigorosa, mas o Regulamento Disciplinar do Exército (RDE) teve mudanças para acompanhar a evolução dos tempos e da sociedade. Hoje em dia, até continência descoberta se faz, mas era só a continência coberta. Era tudo mais formal, cerimonial, com disciplina rígida. Na instrução, a parte de combate era mais cobrada e pesada, com marchas forçadas, na Estrada de Santa Catarina e na Serra do Itapeti, descendo pela Estrada do Beija-Flor, além de muito trabalho de organização de terreno, como construção de abrigos e fortificações. A gente fazia espaldões para armas e trincheiras, com o pessoal usando pás e picaretas para cavar. Fazíamos treinamento como se fazia para a guerra. Mas com a evolução da tecnologia, não se exige tanto do homem e, na manutenção da paz e da segurança, a infantaria é leve, aéreo-transportada e com helicópteros do Exército que transportam pelotões. Trabalhávamos de segunda a sexta-feira, duas horas por dia, e no domingo, pelo menos quatro horas ou o dia todo para fazer os exercícios de marcha e organização de terreno. Era outra situação da sociedade, da economia, de desenvolvimento tecnológico… Outros tempos. Mas hoje também sabemos que antes de servir poucos querem, mas depois que começam a receber instrução, colocam a farda e ganham estímulo, ficam mais ligados e criam o espírito de corpo, que é próprio das unidades militares. Eles se sentem importantes e se mostram diante da sociedade como autoridades e fardados, participando da Festa do Divino, auxiliando no trânsito, por isso quando terminam o tempo de serviço, se emocionam, não querem sair e voltam ao Tiro de Guerra porque continuam ligados a ele por um bom tempo.

Arlei – Hoje, o atirador tem horário único de prestação militar, das 6 às 8 horas. Para ficar depois disso para os trabalhos sociais, comunitários e de defesa civil, tem que ser voluntário. São Paulo tem 74 Tiros de Guerras e alguns empregadores do pessoal que faz serviço militar reclamou, na Capital, sobre o horário. Como isso influenciava muito, baixou-se a determinação de que após as 8 horas eles só podem ficar se forem voluntários. A adesão é muito boa porque eles gostam deste trabalho social, principalmente se estiverem fardados. Ali, deixam de lado o individualismo para trabalhar em grupo e se envolvem muito. Até nos surpreendemos porque nas unidades normais, o soldado recebe o salário-mínimo dele para prestar serviço e nos Tiros de Guerra não recebe nada, mas se envolve até mais do que os outros. Os exercícios de instrução hoje não são tão forçados, mas continuamos fazendo as marchas de 8, 12, 16 e 24 quilômetros. Antes, fazemos o reconhecimento da área e depois o balizamento com destacamento percursor. A última será até o Pico do Urubu.

E o perfil do jovem atirador ontem e hoje?
Mendes – O cidadão vinha mais maduro porque começava a trabalhar muito cedo e já estava mais experiente e responsável porque tinha suas obrigações com a família e vinha trabalhando há tempos por necessidade, para ajudar em casa. Tudo era mais difícil e simples. Havia a carteira profissional de menor e eu comecei a trabalhar com 12 anos. O efetivo era maior, matriculávamos 300 e tínhamos duas turmas de 75, das 5h30 às 7h30, para eles saírem e trabalhar o resto do dia. À tarde, havia o horário das 16 às 18 horas, para atender quem saía das padarias e fábricas às 14 horas, e ainda outra opção, das 17 às 19 horas, para aqueles que trabalhavam o dia todo. Com a evolução vieram as transformações para melhor e outras nem tanto assim porque o jovem hoje fica muito tempo ocioso e caminha mais para o vício. Naquele tempo não havia problemas com drogas. Nem ouvíamos falar nisso, não era preciso orientação sobre o assunto e não havia interesse sobre o tema. E a disciplina rígida era aceita de forma natural, porque em casa os pais também eram assim. Tanto é que os que serviram naquele tempo, hoje são meus amigos. Durante estes 20 anos, tivemos várias pessoas que passaram pelo Tiro e trouxeram grande contribuição à Cidade em várias áreas. O autor do Hino de Mogi, o Raul indo Paiva Júnior, serviu em 1967; o Maurício de Sousa é da turma de 1954, e inclusive publicou crônica no jornal O Diário de Mogi, contando passagens no Tiro. O Armindo Freire Mármora, que foi desembargador, era do mesmo ano. Teve também o Gustavo Pacca, que é biomédico, e fez o anteprojeto da atual sede do Tiro porque quando serviu, em 1969, trabalhava no escritório de engenharia. A Prefeitura gostou, fez a concorrência e construiu a sede, mas o projeto básico é dele. O Dori Boucault serviu em 1968. A classe social e intelectual era variada. Havia universitários e analfabetos e tivemos, inclusive, uma professora que dava aulas em uma sala que montamos de alfabetização de adultos lá. Tínhamos mais vagas dos que alistados e a característica sempre foi conciliar a atividade civil com a prestação de serviço militar. Os valores cívicos e patrióticos são permanentes e o Exército mantém a tradição de formar o bom cidadão, destacando as virtudes, valores, o amor e respeito aos símbolos pátrios. Os eventos do calendário militar também foram mantidos, com forte envolvimento das famílias.

Arlei – Hoje uma das primeiras páginas da Apostila do Atirador já traz orientações sobre as drogas, porque infelizmente esta é uma realidade da atual sociedade. Além disso, temos palestras sobre drogas e doenças sexuais, porque uma maçã podre pode estragar toda a coletividade. Às vezes, notamos alguns com má influência sobre o outro e procuramos separá-los nas atividades, para não deixar que uma pessoa de boa índole seja influenciada. Também focamos neste pessoal que está meio perdido, sem orientação da família, para que seja envolvido nas ações de ajuda à sociedade. Atualmente são 100 atiradores, a maioria com ensino médio completo e mais de 30 cursando o ensino superior. É feita uma seleção inicial e outra complementar, ambas com acompanhamento médico, porque temos cerca de 3,8 mil alistados por ano e apenas 100 vagas para o serviço militar, que acontece de 1º de março a 30 de novembro. Depois que ingressa, ele vai acumulando pontos e se tiver 120, é desligado naquele ano e obrigado a voltar no próximo. Pode ser desligado por disciplina ou faltas. Se houver o desligamento por duas vezes, precisa ir para uma Unidade Militar da Ativa, em Caçapava, São Paulo ou outra, onde fica 24 horas por dia, incorporado, e não pode mais servir em Tiro de Guerra. Hoje, sentimos que o jovem, diante da mudança social, não tem o preparo e experiência do passado, já que há aqueles que ainda nem começaram a trabalhar. Então, até para entrar em forma, muitos passam mal, porque têm menos resistência, já que a vida exigiu menos deles. Outro problema sério é em relação ao empregador, que quando descobre que o jovem vai prestar serviço militar, o dispensa ou, ainda, durante a entrevista de emprego, nem o contrata. E o Tiro de Guerra não influenciado no horário de trabalho, mas se o atirador tiver algum problema, a empresa não poderá despedi-lo porque está prestando serviço militar. Eles tiram o serviço 24 horas, que é a escala de guarda para segurança do quartel, mas quando dá 8 horas, é liberado para trabalhar e estudar e, no final do expediente, volta ao Tiro para prestar o restante do serviço. A gente procura colaborar para evitar que ele perca o serviço e os estudos, dentro da realidade do mercado hoje. O foco é a parte de civismo e cidadania, mas além das instruções militares, primamos pela ação comunitária, que eles gostam muito, porque mostram a farda para a namorada, à mãe e à sociedade. No ano passado, os jovens também puderam interagir com a turma de 1966, na confraternização que reuniu juízes, delegados, promotores, médicos e outros que serviram ali como atiradores.



Como lidar com a Internet e redes sociais durante as atividades no Tiro de Guerra?
Arlei – Eles não usam o celular na instrução, até porque das 6 às 8 horas está todo mundo dormindo. No serviço 24 horas, apenas o comandante da guarda fica com o celular para se comunicar conosco, pedir ajuda da Polícia Militar ou da Guarda Municipal, se necessário. Para os outros, a gente restringe. Também pedimos ajuda à família, porque é uma situação nova ao atirador e muitos têm que acordar às 4 horas para sair de casa e chegar até 6 horas ao Tiro de Guerra. Precisamos muito deste apoio para que ele não falte e saiba que um ano passa logo e que de tudo na vida a gente tira proveito, até mesmo dos obstáculos.

Como os jovens saem do Tiro de Guerra?
Arlei – A maioria tem uma mudança bem grande. No ano passado, um jovem, Vitório, logo que entrou disse que estava ali para ser o atirador destaque e conseguiu, recebendo medalha na Câmara Municipal. Quem não valorizava o Tiro passa a valorizá-lo. Também montamos uma sala de estudos para aqueles que vão prestar vestibular ou concursos. Após a instrução, eles se ajudam e estudam em grupo ali.

Mendes – O jovem sai muito responsável e com mais entusiasmo pelas atividades comunitárias e coletivas porque durante este tempo ele convive com isso em atos civis, religiosos e esportivos. O serviço militar no Tiro de Guerra é uma oportunidade de preparar os munícipes esclarecidos dos problemas sociais, interessados nas aspirações de sua comunidade e cidadãos integrados na realidade nacional. Bom soldado… melhor cidadão. Acontece muito dos irmãos servirem e os outros acompanharem e isso ocorreu comigo, que me envolvi muito nos esportes, na fanfarra, no tiro de estande e decidi prestar concurso para a Escola de Sargentos depois do Tiro de Guerra. Ainda hoje, vários descobrem ali a vocação para a carreira militar.

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