O portão esquecido(fábula) - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
Fechar

           MAURICIO DE SOUSA

O portão esquecido(fábula)

Mauricio de Sousa

Era uma vez… um portão.

Mas não era um portão qualquer, desses construídos sem cuidados no acabamento nem preocupação estética.

Era um senhor portão de ferro trabalhado, largo o suficiente para a passagem de qualquer carro, cheio de curvas, arabescos, voltinhas, e mais um sem número de detalhes que podiam ser descobertos e observados a cada nova passada.

Mas é aí que começavam os problemas.

Ninguém passava por ele.

Imponente, com suas pontas de lança mirando o céu, queixava-se de esquecimento, abandono.

Passava dias e dias fechado, trancado, sem o sorriso de uma abertura para passagem de pessoas ou carros.

E para piorar seu estado de ânimo, uma horrorosa corrente se enrolava e prendia suas duas faces, unindo-se junto a um pesado cadeado trancado. Fora um toque cruel  para dificultar ainda mais seu uso: um fino fio de arame revestido de plástico era dobrado várias vezes, em nós cegos, para reforçar sua imobilidade.

Era o fim.



Pra que é que ele existia?

Se era para não abrir ou fechar, poderia perfeitamente ser uma continuação dos felizes gradis, seus vizinhos, tranqüilos, imóveis e conformados.

Mas não pensem que o portão estava sem uso por proteger uma casa sem moradores.

Havia moradores e carros, sim… usando outro portão.

Um portão igualmente trabalhado em ferro, grande e majestoso como o primeiro, mas com uma diferença: abria e fechava com um controle remoto, eletrônico.

Era chegar, apertar o botão do aparelhozinho de controle e o portão recebia carros e pessoas com suas duas faces abertas, sem dar nenhum trabalho a não ser o pequeno toque.

Servia até para as crianças brincarem, como brincam com portas automáticas nos shoppings ou com as escadas rolantes.

E esse entra e sai e abre e fecha festivos eram um sofrimento para o outro portão,

Mas lá no seu âmago, no escondidinho de suas ferragens, jazia uma esperança meio maldosa: um dia, de preferência com bastante chuva ou frio, os moradores da casa iriam perder ou esquecer o aparelhozinho de controle. Nesse dia o fiozinho seria arrebentado, o cadeado aberto e as correntes atiradas a distância… e de novo ele serviria para o que veio.



Mas enquanto isso não acontecia, até que de vez em quando lhe passava pelo pensamento uma vontadezinha de parar de invejar o outro portão… e preparar-se, também, para ganhar um motorzinho elétrico. Quem sabe?

Compartilhe nas redes sociais...Share on LinkedInTweet about this on TwitterShare on FacebookShare on Google+Email this to someone