O que é um muro? - O Diário - Mogi das Cruzes , Suzano e Região do Alto Tiete
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           MAURICIO DE SOUSA

O que é um muro?

Mauricio de Sousa

Tenho um sobrinho-neto americano: o André, que mora e reina em Washington, junto com seu irmão mais velho, o Pedro.

Nestes anos todos em que ele vem se acostumando com o mundo onde veio parar, tem nos presenteado com pérolas, nascidas de sua inteligência e ingenuidade no trato com duas culturas: a americana e a brasileira.

Mas a última dele, contada pela Maura, minha irmã e sua avó, que também mora nos Estados Unidos, foi quando lhe falaram que no Brasil era comum criança brincar em cima do muro.

Foi quando ele abriu ainda mais seus lindos olhos claros e perguntou:

– O que é muro?

E daí nós todos, na família, começamos a pensar mais seriamente no significado do muro… e da sua ausência, no mundinho habitado pelo André.

E o que é um muro para cada um de nós.

Enquanto que para o André e o Pedro o horizonte é mais aberto, livre, sem muros nem cercas separando casas, famílias, na maioria das cidades do mundo continua o sistema de fortalezas, muralhas, cercas e muros, altos. Mesmo nos Estados Unidos.

Na nossa conhecida Miami há os bairros com e sem cercas e muros.



E em áreas onde a segurança deixa a desejar, como na nossa cidade de São Paulo, por exemplo, e infelicidade, há uma criatividade exasperante na separação de pessoas, bens e horizontes.

Noutro dia, enquanto passava de carro por alguns pontos de São Paulo e pensava na linda ignorância do André, ficava imaginando como seria a paisagem da cidade sem muros. E me maravilhava com as possibilidades de embelezamento das ruas, dos bairros, com sua arquitetura à mostra, suas árvores, sua gente, mais próxima e sem medos.

E via, enquanto sonhava, desfilarem ao meu lado, muros altos, quase que muralhas, armados com vidros, pregos, ganchos pontiagudos, com portões blindados, movidos a controle remoto.

Tudo isso escondendo gente com medo.

Eu me lembro que morei, durante 14 anos, numa casa de esquina, na rua Heitor Penteado, em São Paulo, onde o muro não passava de dois palmos de altura, com uma gradinha de mais 3 palmos em cima. Um jardim separava a casa do murinho e por sorte ou por outro motivo qualquer, durante todos os 14 anos, jamais o jardim foi invadido.

Ainda hoje tento lutar contra a separação e o medo.

Minha casa, mesmo contra certos temores de alguns familiares, teve as janelas alargadas para receberem vidros imensos que, se servem para impedir o frio e a chuva, deixam passar todas as cores da natureza e de vez em quando, um aceno dos vizinhos.

Hoje luta-se contra a poluição, contra o excesso de carros nas cidades, contra tudo que violenta o ser humano em sua busca de paz e felicidade.

Acho que muros, cercas e muralhas podem começar a entrar na lista de condenáveis e descartáveis. Principalmente porque podem, perfeitamente, ser substituídos por lindas cerquinhas vivas, com flores e perfume demarcando espaços mas não impedindo a comunicação dos homens.



E, sem dúvida, quando há a comunicação, há o respeito. Inclusive à propriedade.

 

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